Polaroid – Etapa de Brasília da Stock Car

Veja uma galeria de fotos da corrida do último domingo por uma visão mais particular, com tudo o que é direito e faz dessas imagens grandes obras de arte carregadas de velocidade.

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Anjo de patas

Hoje um pedacinho de mim foi embora. Um pedacinho que entrou na minha vida no momento que representou uma nova chance que eu ganhei depois de um dos episódios mais complicados pelo qual já passei.

Há 16 anos, sofri um serio acidente no Carnaval, quando atravessei uma porta de vidro e tive sérios ferimentos na face, que me acompanham até hoje. Tive muita sorte, pois o corte abriu o lado direito do meu rosto, a centímetros do olho e a menos de um palmo das veias do pescoço. Sem contar a orelha, destruída.

Sem entrar em muitos detalhes que renderiam Oscars de efeitos especiais, roteiro e atuações, passei por uma cirurgia delicada, com metade do corpo para fora da maca, levando mais de 100 pontos.

Passaram-se os dias, meus avós chegam em casa com uma caixa de sapatos. Era uma cadelinha com pouco mais de um mês, encolhidinha, morrendo de medo, que foi gerada pela cadela do meu tio. Não sei se foi combinado isso antes, mas nem quero saber, para não tirar a magia da história. Depois de alguns nomes imbecis sugeridos por meus irmãos e eu, meu pai deu a deixa: o nome dela será Buba, em homenagem à personagem da novela das oito.

A partir daquele momento os dias em casa nunca mais seriam os mesmos.

Marronzinha, uma mistura de fox e vira-lata, com pose de raposa perua, latia por qualquer coisa e odiava dormir no quintal. Quando chovia era uma choradeira só, que já iniciava com a primeira trovoada. Dava dó ver ela sozinha no réveillon quando todos viajavam.

Quando passamos a morar em um apartamento, a cama oficial dela ficaria na cozinha, mas não teve outra: elegantemente, se auto-colocou (existe isso?) aos no quarto dos meus pais, no lado de minha mãe, encostada no criado muro.

Ela já deu alguns sustos, como uma operação surpresa para tirar pequenos nódulos, e ficou com aquela tampa de abajur na cabeça, para não arrancar os pontos. Tirando isso, foi uma vida mansa, tranquila, feliz. Como devia ser.

No espaço de um ano, ela passou a definhar, ao mesmo tempo em que uma bolinha surgia no canto da boca. Ela passou a não comer mais sozinha, por conta disso, e o jeito era dar comida com uma seringa. Aos poucos, também foi perdendo a lucidez, andava como se estivesse perdida e não se comunicava mais conosco. Apenas andava em círculos.

Havia pedido para não ser comunicado de nada meses antes, mas quando notei um silêncio grande enquanto estava trabalhando, nao havia reparado que ela tinha ido embora. Me deu uma vontade de ter me despedido, ter feito mais que uma simples afagada pela manhã…

Havia feito uma promessa para mim mesmo: assim que ela morresse, faria uma nova mudança em minha vida e sairia de casa. Mas, não importa onde eu estiver, a lembrança dela ficará sempre comigo, assim como a cicatriz que levo no rosto.

A realização do sonho

Razia anda com o VR01 em Abu Dhabi (Sutton)

Quantos de nós, quando pequenos, nos imaginamos de macacão, capacete estilizado, dentro de um F-1, andando pelas pistas do mundo. Praticamente todos os aficionados por velocidade. Agora, quantos desses realizaram o sonho? Dá para contar nos dedos. Se bobear, não fecha uma mão.

É bom ver alguém realizando um sonho tão difícil e batalhado. Hoje, em Abu Dhabi, Luiz Razia realizou o meu sonho e o de muitas outras pessoas. O baiano, de 21 anos, completou 70 voltas com o fraco carro da Virgin. Mas era um F-1 e isso é o que conta.

Quem o conhece sabe o quanto ele batalhou por isso. Com o eterno apoio do pai, que está transbordando de alegria lá do lado do filho, Razia demorou cinco anos para poder atingir à F-1. Neste período, muito aprendizado, muitas dificuldades, e tudo aquilo que todo piloto relata (vida fora do país, poucas amizades, dedicação ao extremo).

O resultado foi muito bom. Para quem deu apenas dez voltas com pneus de demonstração e sem poder acelerar no começo do ano, um treino limpo e sem erros, com um tempo bem próximo do registrado por Jerome D’Ambrosio (que tinha o suporte de ter participado de algumas sessões de 1h30 nas sextas-feiras pré-GP), apenas 0s007 atrás.

Para quem trabalha com ele, como eu, é uma sensação bem bacana. Luiz é um moleque legal, que acompanho desde 2005. Ao mesmo tempo que é brincalhão e sarrista, é dedicado. E vem sendo muito interessante acompanhar seu amadurecimento neste período.

Torço muito para que ele consiga este objetivo. Afinal, é um pedacinho de mim que está lá com ele. De mim, não, de todos nós.

Os dois lados da moeda

Hulk sai de cena. Por enquanto (Beto Issa)

A Alemanha ganhou um campeão mundial novinho em folha, mas nem tudo é festa na terra do chucrute. Em contrapartida, no dia seguinte, foi anunciado que a maior revelação do país está sem espaço na F-1 em 2011.

Chamar de maior revelação não é nenhuma blasfêmia, tratando-se de Nico Hulkenberg. Tudo bem que ele venceu a GP2 quando Romain Grosjean decidiu embarcar na barca furada da Renault, mas se ele não estivesse na frente, isso não aconteceria.

E quem faz o que ele fez em Interlagos neste ano sabe o que estou falando. Analisando a temporada, Hulkenberg certamente foi o melhor dos estreantes, não Lucas di Grassi, que adora dizer que foi. Nico teve um desafio real, chamado Rubens Barrichello, e saiu dele recebendo mais elogios que críticas.

Porém, infelizmente, na F-1 o talento, na maioria das vezes, é facilmente trocado por um cheque. Sair Hulkenberg para entrar Maldonado é uma das grandes injustiças da história.  Podemos correr o risco de este vídeo ser sua maior lembrança na F-1, o que pode ser uma grande pena.

Der Weltmeister

 

O choro do novo campeão (Mark Thompson/Getty Images)

Nunca ninguém gostou tanto de ver um alemão campeão. O choro de Sebastian Vettel, após saber que faturou o título, certamente entrou para o “top 10” dos momentos mais emocionantes da história da F-1. Aliás, os últimos quatro anos têm um lugar cativo no coração do fã de automobilismo.

Está errado quem disse que o GP de Abu Dhabi foi insosso. A corrida não se resume ao primeiro colocado, como provou Fernando Alonso, que viu Vitaly Petrov em um dia de Enrique Bernoldi, defendendo com unhas e dentes sua posição, e teve de torcer pelo resultado dos outros _mesmo dependendo só de si no início da corrida. Sem saber se está confirmado em 2011, Petrov fez o que pôde para ser notado. Alonso tem a sua razão, mas Petrov também tem. A culpa, neste caso, foi a Ferrari.

Na real, a culpada não foi a Ferrari, mas, sim, a Red Bull, por ter sido genial. Pode ser muita conspiração da minha cabeça, mas penso, sim, que Horner chamou Webber aos boxes de propósito, sabendo que Alonso e Massa fariam o mesmo. Não era nenhuma novidade que isso aconteceria. Com a “tática”, os três ficaram presos atrás de pilotos que pararam nos boxes durante o safety car provocado pelo acidente de Schumacher e Liuzzi, e não tiveram vento na cara em nenhum momento.

A verdade nós nunca saberemos. Afinal, isso pode gerar uma crise sem tamanho na Áustria. Mas podemos dizer que foi o melhor jogo de equipe de todos os tempos.

O campeão e o champanhe (Mark Thompson/Getty Images)

“Mas, e daí?”, diria Vettel. O que importa é que ele foi impecável nos últimos sete dias: duas vitórias, uma pole, 50 pontos. Alonso? 21 pontos e um pódio. Webber? 22 pontos e um pódio. E era para ter sido 75, não fosse a quebra na Coreia. Se contarmos o GP do Japão, seria uma sequência de quatro vitórias e 100 pontos. Isso mostra que o campeonato não foi decidido na sorte.

Vettel era o cara, mas, inteligentemente, deixou Alonso e Webber ficarem com os holofotes. Ele sabia que, na pista, ninguém mexeria com ele. Falem o que quiserem, Sebastian Vettel mostrou que de moleque não tem nada na reta final, quando o buraco apertou. Foi lá, ganhou, e recebeu a coroa de Schumacher.

O mestre e sua cria (Paul Gilham/Getty Images)

O Mundo da F-1 tem um novo Rei.

Contando as horas

 

Um deles leva essa taça, amanhã

Amanhã teremos um campeão mundial de Fórmula 1. Isso não muda o mundo, claro, mas faz uma grande diferença pra muita gente. A começar pelo campeão, que, mesmo sendo Alonso ou Hamilton, terá sua vida revirada de ponta cabeça.

Nesse caso, acharia bem legal se Vettel ou Webber levasse o caneco. Webber, preferencialmente, por estar na lida há anos e nunca ter recebido uma chance dessas. Só. Vettel será campeão de novo, isso é fato. O único, talvez, que não gostará nem um pouco do título do australiano é Antonio Pizzonia. No entanto, disparado, será a comemoração mais fria de todas.

Também torço pelo campeonato de Alonso, mas não por ele, apesar de seu talento, mas, sim, pela Ferrari. Pela festa que vão fazer ao redor do mundo. Com ou sem jogo de equipe, um título da Ferrari é uma celebração que merece ser apreciada em todos os seus detalhes, pelo amor que esta marca transmite, não importa a falcatrua que aconteça. Sempre é histórica. Que me perdoem os Massistas. E outra, ele será tri, entrará para o grupo dos imortais, do qual pertence e merece estar.

Vettel? Se ele for campeão, veremos uma festa digna de Jorge Lorenzo e Valentino Rossi. O dedo levantado, a cara de mau fazendo as fotos, abrindo o sorrisão logo em seguida, os chapeus de búfalo, um banho na piscina de areia, o que vier será bem aproveitado. Será uma grande festa com a cara jovem tanto de Vettel quanto da Red Bull. Uma hora ou outra ela vai acontecer. Espero.

Claro, temos Hamilton. Seria a festa da superação. Veríamos a deliciosa da namorada dele desfilando com o seu corpão, gritando e pulando. A F-1 teria ares de Hollywood, como em todas as finais que Hamilton disputou. Seria tão legal quanto as outras. Sem contar que o número 1 deveria ser da McLaren para sempre. Estou para ver um carro combinar tanto com um número.

Estamos bem servidos para amanhã. Ainda bem.

Triste fim

Yann Andrade passa no fim da reta oposta (Reprodução)

Foi triste e melancólico o final de temporada da F-3 sul-americana. O que era para ser uma grande festa diante da maior categoria do planeta se tornou um episódio patético e desnecessário.

A rodada final em Interlagos contemplaria Yann Cunha ou Bruno Andrade como grande campeão _ambos chegaram separados por cinco pontos. Na classificação, Yann foi desclassificado por usar uma asa de especificação diferente e teve de largar as duas provas de último (com 14 carros no grid, isso não mudaria muito o valor do dólar, tanto que, nas duas corridas, ele rapidamente ultrapassou a maior parte do pelotão).

Yann mergulha e Andrade não dá espaço (Reprodução)

Mas vamos ao assunto: na segunda prova, largando em último, Yann engoliu todo o grid até chegar em Andrade. O que se viu foi uma das disputas mais fortes do ano _certamente, a melhor de todo o fim de semana, e nessa relação incluo a F-1 e as sempre agitadas Porsches Cup e Light.

Dupla desce o "S" do Senna "enroscada" (Reprodução)

Os dois se enroscaram no “S” do Senna: Andrade deu um pouco de espaço, Yann entrou nele, nenhum dos dois arregou e o choque foi inevitável. Foi meio Senna-Prost/89. Ambos seguiram lado-a-lado, desviaram de um retardatário, com Yann chegando a sair da pista, e seguiram alinhados, trocando tinta (isso foi desnecessário da parte de Yann) até o fim da reta oposta, quando Yann atrasou a freada, travou tanto que levou um toque de Andrade e passou. Dizem que ele freou para Andrade bater nele, como na narração, mas não acredito nisso.

Yann usa área de escape para desviar de retardatário (Reprodução)

A corrida seguiu. Yann foi segundo e Andrade teve um pneu furado, caindo para quinto. O resultado dava o título para Yann. Por conta do incidente no “S” do Senna, Yann recebeu 20s de acréscimo em seu tempo final e caiu para quarto. Mesmo assim, ficou na frente de Andrade e conquistaria o título. Conquistaria, pois Augusto Cesario, chefe de equipe de Andrade, pediu a desclassificação de Yann por meio de um recurso junto à direção de prova. O resultado sairá no tribunal. Nada de novo por aqui, certo?

Quanto à isso, tudo bem. O problema foi o que aconteceu depois da corrida, que tirou toda a parcela de razão da turma de Bruno Andrade, por mais que Yann tenha sido desleal. Algumas pessoas _provavelmente equipe, parente e amigos do piloto_ partiram para cima de Yann, que mal havia deixado o carro, e o tempo fechou. Sobrou porrada até para quem não tinha nada a ver, como o piloto Daniel Politzer.

É uma pena tudo isso acontecer, uma vez que a F-3 sul-americana é formada em grande parte por alguns apaixonados por automobilismo que militam a anos para que o campeonato não morra. A sorte é que pouquíssima gente viu. Pelo menos um lado bom de ser preliminar da F-1 e ficar escondido no kartódromo. Dá pra causar “à vonts”.

O acidente pode ser visto aos 22 minutos deste link.