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Capa de jornal que muita gente esperou um tempão para ver

“Ó, hoje é o primeiro dia de aula e eu não quero que você venha me falar de Rubinho”, disse meu colega de sala, Felipe, mais conhecido como Coxinha. Lembro disso como se fosse ontem. Já estava em ritmo de vestibular (para meus pais; eu estava em ritmo de vadiagem, matando aulas e fumando escondido) e meu tempo livre era todo ocupado com corridas.

Comprava todos os jogos de Playstation (piratas, claro), lia a Racing, a Speedway, jornais e guardava tudo isso no armário, para o delírio da dona Wal. Naquele ano, não tinha conseguido comprar ingresso para o GP do Brasil após um dia inteiro na fila (o que me deixara arrasado), e tinha um adesivo do Barrichello em minha pasta, o que acabou me rendendo um apelido até o final da faculdade.

Oito horas da manhã do dia 30, e o radinho já estava religiosamente no ouvido, ouvindo o trio Nilson César-Cláudio Carsughi-Flavio Gomes em um fone, e Odinei Edson-Lívio Oricchio-Fábio Seixas no outro. Nunca imaginava que, dez anos depois, já teria trabalhado ao lado de cinco deles. Da mesma forma que Barrichello não imaginava que, 44 voltas depois, se veria no alto do pódio.

Foi algo fora do comum.

A história da corrida todos já sabem, não é preciso descrever. Mas eu gosto de lembrar, pois assisti tudo com os olhos de um espectador e bem diferente dos dias de hoje. Meus únicos apoios eram uma tabela de resultados feita à mão e o jornal do dia anterior com o grid de largada. E, claro, o radinho.

Torci pra caralho, não sou hipócrita. Achei lindo quando o doido entrou na pista e o Rubinho (liberdade de torcedor) subiu para quinto e pulou para terceiro após a panca do Alesi. Ele e Frentzen, que corridaça a dos dois, largando de trás. Aí choveu e o coração foi parar na boca. Mas sabia que ele ganharia. Ele na chuva era foda. Ainda é.

Veio a última volta, vem as últimas curvas e a inesquecível frase do Galvão: “Vamos ouvir o Tema da Vitória, que há sete anos não ouvíamos”. Ele cruzou a linha, a musiquinha tocou, todo mundo chorou junto com ele. De repente, o Rubinho perdedor era o Rubinho ganhador, como se fosse em um passe de mágica.

Mas, na verdade, aquela vitória foi a válvula de escape de seis anos de expectativa. Lembro de sair na rua, de ir à feira, e sentir um clima diferente dos outros domingos. Todos sorrindo, comentando, comemorando. Em casa, com a internet ainda discada e dando seus primeiros passos (pelo menos na minha casa), lembro de ter ouvido incansavelmente a narração da última volta e uma entrevista com o avô dele, além de ler e reler tudo o que saía no Grande Prêmio, quando este era o site de um homem só.

Lembro de ter comemorado muito. Só não lembrei de agradecer a ele por aquela felicidade toda que ele me deu aquele dia. Felicidade que me fez ter ainda mais a certeza do que eu queria fazer na vida, que era acompanhar esses carrinhos até ficar velho.

Valeu, Rubinho.

A cena de Hakkinen e Coulthard te levantando no pódio é a principal imagem que guardo da sua carreira, não a da Áustria em 2002. Esta e a de um dia de 1998, quando furei fila para tirar uma foto (que queimou o filme), conseguir um autógrafo (que tenho até hoje) e só dizer que gostava de você para caralho, pois o resto não saiu de tão nervoso. Se o episódio fosse hoje, te diria que o dia 30 de julho de 2000 valeu por todas as frustrações daqueles seis anos de Ferrari, mais os seis anos se fodendo depois que Ayrton Senna morreu. E te daria parabéns.

Nunca o considerei um perdedor, pelo contrário. Mas você acabou se tornando um símbolo entre tantos outros como Dunga (outro injustiçado, no caso em 1990) que o brasileiro elege pura e simplesmente por ser um idiota que prefere zombar de um esportista a evitar que um político corrupto seja eleito diversas vezes e ainda tira dinheiro do seu bolso. Ou seja: um perdedor que gosta de chamar os outros assim, mesmo que eles não sejam.

Um abraço.

PS: Se tu não tiver, vou te dar este jornal de presente.