De carona no Dacar: “Bivouac S.A.”

Depois de uma quarta-feira agitada, o dia de hoje foi bastante calmo pra todos nós. Calmo no sentido de poucas emoções. Não vimos nenhum carro, apenas quando chegamos no bivouac.

Vimos de longe, mas foi divertido da mesma maneira: para chegar ao fim, os pilotos desceram uma grande montanha de areia, chamada por aqui de “tobogã de areia”. Cada descida era uma festa, e os competidores chegavam exaustos.

No caminho, passamos por belos cenários do Oceano Pacífico, sem praias: a beira do mar era repleta de pedras entre areia e mar, o que impede qualquer banhista de “salgar a bunda” no mar.

Desta forma, fomos obrigados a passar o dia inteiro no bivouac, e almoçamos por lá. E isso é algo que quero descrever para vocês. Sabem aqueles seriados norte-americanos passados em escolas, onde os alunos pegam a bandeja na hora da refeição e os cozinheiros jogam uma gororoba no prato? Aqui é mais ou menos assim.

Hoje teve um negócio chamado cuzcuz, que não é aquela comida famosa que temos no Brasil. São uns grãos amarelos, como se fossem bolinhas, similares ao arroz, com pedaços de tomate e manjericão. O problema é que o povo aqui parece estar em contenção de despesas: se havia 30 gramas no prato era muito.

Além disso, serviram diversos tipos de frios. Queijo, presunto, salame, que não alimentam nada. Mas não estamos aqui para comer, mas, sim para trabalhar, né! E, todos os dias antes de viajarmos, eles dão um pacote para cada um, contendo o que nossas mães chamam de “porcarias”: biscoitos estilo Club Social, amostra grátis mínima de Nutella, um enlatado de comida dos mais diversos tipos (de atum a carne de pato), uma barrinha de cereal e uma caixinha de suco.

O problema é que só conseguimos comer o conteúdo do pacote à noite, pois ele se perde no “buraco negro” onde ficam as malas, na parte de trás. Cada solavanco faz o pacote ir cada vez mais fundo embaixo das malas, e mal conseguimos nos mexer lá dentro. Desta forma, passamos o dia inteiro na estrada a base de água.

Mas tudo bem. Além de contemplarmos a paisagem, bolei uma trilha sonora especial para ouvirmos e cantarmos ao longo do caminho. Como respeito meu amigo Lua, não coloco alguns sons que quero, como rock pesado, por exemplo. E fiz uma compilação repleta de música brasileira: Wilson Simonal, Novos Baianos, Raul Seixas, Secos & Molhados e Tim Maia, por exemplo.

Aliás, uma coisa curiosa aconteceu quando estávamos ouvindo “Sociedade Alternativa” no estacionamento do hotel, antes de partirmos. Os “gringos” Tim e Martin ouviram o refrão: “Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa” e encontraram muita similaridade na pronúncia das palavras “viva” e “bivouac”, que a gente pronuncia “bívak”.

Não demorou muito para todos estarem cantando: “Bivouac! Bivouac! Bivouac Sociedade Alternativa!”. Hahahaha!

Na parte internacional da trilha, o disco “The Wall”, do Pink Floyd, além de Kiss, Def Leppard, Red Hot Chili Peppers, Rod Stewart em sua fase rock and roll (do início dos anos 70), e um Motley Crue que consegui encaixar para ouvir enquanto dirigia.

Agora, estamos rumando para o hotel, onde devemos ter uma noite de descanso para enfrentar a sexta-feira, que será o último dia do Dacar para a maioria da turma de jornalistas que está aqui comigo.

Muitos dizem que já estão começando a sentir saudade da turma. Eu também.

PS: ontem acabei levando o inglês Tim para uma balada aqui em Antofagasta. Ver um inglês dançando música latina e tentando uma aproximação com os locais é algo hilariante. Ele bebeu tanto que perdeu o horário e quase o esqueceram no hotel, pois ele não acordou na hora combinada!

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De Carona no Dacar: Competição e integração

O tempo passa voando… Nem parece que estou fora de casa há nove dias! Hoje foi mais um dia de belos cenários e experiências inesquecíveis.

Saímos de Copiapó pontualmente às seis da manhã e partimos para Antofagasta. Como o Lua dirigiu ontem o dia inteiro, foi minha vez de assumir o volante. Apesar de estarmos em uma cidadezinha no meio do deserto, de manhã fez um friozinho gostoso _o que obrigou o uso de uma jaqueta pela primeira vez!

Mas, de manhã, rolou um pequeno estresse. O assessor da Volkswagen Motorsport da Alemanha pediu para irmos na frente, e assim o fizemos. Só que, de repente, um outro membro da equipe, terceirizado, que se acha o dono do mundo, veio discutir comigo. “Você sabe para onde está indo?”, questionou. E, antes mesmo de eu responder, ele berrou: “Então por que você está na frente?”. Depois de uma discussão, no fim da tarde ele veio pedir desculpas, já que o superior dele viu tudo de camarote e discordou da atitude escrota do indivíduo.

Aceitei as desculpas. O negócio aqui é integração, não discussão.

Seguimos viagem. E que viagem longa e depressiva. Era areia de um lado, areia do outro. Mas, depois de uns 150, 200 km, chegamos à beira do Pacífico. Só que, curiosamente, não tinha areia na beira do mar, mas pedras. E assim foi durante todo o caminho. Nisso, demos uma paradinha para reagrupar a caravana do delírio e seguimos viagem.

Fizemos uma pequena reunião e decidimos tomar uma direção diferente, rumo ao deserto, para assistirmos à especial. Só não sabíamos que teríamos de pegar um trecho paralelo ao da especial, com areia fina, chamada de “fesh-fesh”, muitas pedras e buracos. Como marinheiro de primeira viagem, fiquei em pânico, pois não queria atolar a viatura.

Foram 25 minutos de tortura para mim, mas depois conseguimos e ficamos em um local onde todos passariam. Depois me acalmei e pensei: “Fiz rali no Atacama junto com os pilotos do Dacar!”. Realmente, foi demais, mas, na volta, decidi passar o carro para o Lua.

Neste lugar, havia uma placa curiosa, onde indicava o caminho para um oasis! Sensacional! Nisso, a temperatura ambiente já ultrapassava os 35ºC, e o sol tostava a todos. Os alemães já estavam colorados: metade vermelhos, metade brancos.

Esperamos alguns minutos pelas motos e algumas horas pelos carros, e a sensação foi incrível! Ver o ídolo Robby Gordon dar um salto de 20 metros a cinco de você é algo indescritível. A mesma sensação veio quando Sainz, Nasser, Al Attiyah e Neves passaram por nós. Mas, peraí… Cadê o Peterhansel? Só no bivouac soubemos que ele teve uma série de problemas.

De lá seguimos para o bivouac, e, depois, para o hotel, mas queria compartilhar algo muito legal que acontece neste evento. Além dos brasileiros, a Volkswagen convidou pessoas do mundo todo. Sendo assim passo o dia com colegas gregos, paraguaios, argentinos, alemães, ingleses, norte-americanos, italianos e uma figura peculiar: o chinês Jin Cie.

Repórter, fotógrafo e cinegrafista da CCTV, Jin é um cara calado. Passa o dia inteiro fumando o seu cigarro chines e rosnando algumas palavras do tipo “yes”, “no”. E sempre quieto. Hoje, ele deu show. Sem falar uma única palavra, conseguiu prender a atenção de todos ao fazer uma brincadeira com uma garrafa e estalando os dedos de uma forma que nunca vi antes.

Fiz questão de registrar nos vídeos abaixo:

De repente, vimos todos os alemães tentando repetir o chinês, que só ria. No bivouac, nosso amigo Lua e um cinegrafista alemão, ambos avantajados (ou com ossos largos, como dizem por aí), simularam uma luta de sumô. Esta brincadeira fez a VW inteira parar para assistir e rolar de rir.

Essa globalização é um grande barato. De alguma forma, todos se entendem. Até agora há pouco, quando esperávamos a confusão em relação aos quartos do hotel serem resolvidas, todos ficaram bebendo cerveja e rindo bastante com as histórias já acumuladas. E todos chegaram a uma conclusão: no dia 9, quando a safra atual será restabelecida, todos sentiremos saudades destes momentos.

Todos aqui já criaram uma relação de amizade bastante sólida. É como se nos conhecessemos há anos. Por isso, todos nós decidimos viver intensamente os três dias que faltam. Essa é a coisa mais legal de viver. Aliás, aprendi muito sobre a vida, hoje.

Amanhã vamos ao extremo norte do Chile, a Iquique, para depois retornarmos à Antofagasta. Serão cerca de 600 km, e provavelmente não teremos a chance de ver os carros de perto novamente, em ação. Mas, certamente, teremos um dia de muita diversão, risadas e trabalho.

De carona no Dacar 6 – de 46ºC a 8ºC!

Estou vivo! Sim, sobrevivi a uma noite no deserto. Mas, antes disso, foi um longo dia.

Assim como aconteceu nos dias anteriores, deixamos La Rioja pelas seis da manhã. Foram quatro horas de sono. Como dirigi os dois dias anteriores, me deram uma”folga” e, assim que o carro entrou na estrada, apaguei.

Nunca dormi tão bem em um carro. Mesmo o banco sendo de competição, com o cinto de seis pontos bem apertado.

Quando acordei, já estávamos no deserto. A areia da região de Santa Rosa, onde foi dada a largada, é diferente da que encontramos nas praias daqui. Ela é muito fina, chamada de “fesh-fesh” pelos ingleses. Tão fina que consegue entrar em todos os seus poros.

Ver uma largada do Dacar é muito interessante. Os carros largaram com um intervalo de três minutos entre si, e cada um partia de um jeito diferente. A única coisa ruim é que comi areia até cansar. Quando deixamos a largada, com destino a um trecho da especial _já que a especial dava uma volta nas dunas e retornava_, o carro atolou. Que beleza…

As rodas ficaram cobertas de areia até a metade. E lá vamos nós guinchar a viatura. Comi mais areia, mas, pelo menos, conseguimos sair de lá. No caminho para a especial, encontramos um lugar muito engraçado. De um lado, deserto, seca; do outro, árvores, lagoa e uns bichinhos. Tinha até uma casinha onde morava uma velha senhora, que ficou maravilhada com “essas pessoas que falam diferente”. Fez a maior festa.

Ao chegarmos no trecho, a temperatura ambiente batia na casa dos 46ºC. E o mais impressionante é que muita gente estava lá. Velhos, crianças, jovens, mulheres, todos com suas cadeiras de praia, sentados e esperando os carros passarem. E demorou, viu. Muitos carros ficaram atolados e perdidos nas dunas. Ficamos pouco mais de uma hora ali e só passaram sete carros. E nada dos brasileiros. Aí, não aguentamos e fomos ao bivouac.

Chegando lá, uma tempestade de areia cobria a tudo e todos. Ganhamos uns óculos especiais, o que foi nossa salvação. Já quem estava no media center _uma tenda que parecia prestes a voar por causa do vento forte_, viu seus computadores ficarem cobertos de areia. E, pior, a tempestade cortou a conexão, e quem pagou ficou bem bravo. Como não tinha conexão, sequer arrisquei tirar minha máquina da mochila.

Mas, no meio do deserto, havia algo muito bonito para contemplar: o pôr-do-sol. Eita coisa bonita! Depois disso, a tarefa foi montar as barracas. As que deram para nós eram maravilhosas para montar: era só jogar no chão que elas armavam sozinhas! Um espetáculo! O problema foi colocar no saco de manhã, mas nada como ter amigos!

Acordamos hoje às 5h. E o nascer do sol foi outra dádiva. Mas tivemos pouco tempo para admirar, pois teríamos quase 700 km pela frente e uma fronteira para atravessar. Antes da fronteira, uma recomendação dos alemães: “no food”. No Chile, você não pode entrar com frutas, vegetais, carne; apenas produtos industrializados. Mas os alemães não entenderam direito as ordens do governo chileno, e jogaram sacos inteiros com comida fora. Já os chineses começaram a comer como loucos para não desperdiçar. Foi uma cena curiosa.

Pé na estrada. De repente, do nosso lado, passaram todas as estrelas. Peterhansel, Coma, Sainz, Neves, todos. Isso em uma estradinha simples, onde não passavam três carros lado a lado. Passados 200 km, chegamos na Cordilheira dos Andes, em um trecho 4.700 metros acima do nível do mar. Depois de enfrentarmos um calor de 46ºC, nos deparamos com um frio de 8°C e um cenário maravilhoso. Todos paravam para tirar fotos e admirar a cena, que só costumamos ver em papéis de parede.

Depois de uma meia hora, voltamos para a estrada. Mas a altitude não me fez muito bem. Comecei a sentir muita moleza e passei o carro para o Lua. Sentei no banco de trás e apaguei. Só acordei nas aduanas, onde tivemos de apresentar uma série de documentos. Passada a aduana e a fronteira, caímos no Atacama. Que deserto bonito _e melancólico.

Era uma estrada e nada em volta. Paramos em um oásis, com um lago muito curioso. Em uma parte dele, a temperatura batia nos 40ºC. Cinco metros depois, a temperatura era de 10°C. Coisas que só o Atacama traz. Nos deparamos até com lhamas e com dois esqueletos de animais que mais pareciam bois. Dois, lado a lado, em uma cena única. Nunca vi algo parecido.

Tirando isso, nada. Sim, nada. Era areia, pedra, e a estrada. Uma depressão só. Como os próximos 300 km seriam iguais, ativei meu companheiro de viagem, o livro “Noites Tropicais”, de Nelson Motta, e mergulhei no mundo da música brasileira dos anos 60. Uma viagem e tanto!

Só que, no meio do deserto, havia uma cidade! Copiapó parecia mais um oásis no meio de tanta areia. Fiquei contente quando vi um outdoor escrito “internet banda ancha con 15 megas”. Finalmente conseguiria trabalhar! É nesta hora que vemos como somos reféns da tecnologia. Ficar um dia sem internet e telefone (e sem hotel, também) foi uma experiência diferente. Quando chegamos no bivouac, não havia ninguém e a estrutura ainda estava sendo montada. Apenas os pilotos de moto chegavam, almoçavam e desabavam no refeitório. Nada mais justo: eles são heróis.

No fim do dia, o que todos queriam: um banho e uma cama. Mas, antes, havia trabalho para ser feito. Amanhã, teremos mais um longo caminho pela frente: de Copiapó a Antofagasta, serão 558 km e sete horas de viagem. O lado ruim? Acordar às 5h. O lado bom? Pegaremos a estrada que faz margem ao Oceano Pacífico. Aí sim eu vi vantagem. Por isso, posso prometer muitas fotos fantásticas para todos! Agora, peço licença para tomar um merecido banho de banheira. Ah, mereço, vai!

De Carona no Dacar 5 – um dia de espectador

Domingo? Hoje é domingo? Não tenho a mínima ideia de que dia é hoje. Aliás, para mim cada dia é uma experiência nova e totalmente diferente do que já vi. Hoje, por exemplo, vivi um dia de espectador.
Logo cedo, o telefone toca e ouço um “buenos dias, quinze para siete (algo do tipo)”. Acordar com a voz de um argentino não é uma das coisas mais agradáveis. Desço para o café e, na mesa do lado, os pilotos da Volkswagen lancham tranquilamente.
Sainz, Al-Attiyah, Neves, Maestrelli, De Villiers e toda a equipe cumprimenta a todos com um sorriso e fazem questão de saber se você descansou bem e tal. Onde você pode tomar um café com as maiores estrelas de um evento? Essa é outra experiência bem bacana.
A caravana do delírio marcou para sair às 8h, e lá estávamos. Quando saímos do hotel em Córdoba, vimos que havia chovido a noite passada, e o céu estava bastante carregado. Isso significa o que? Muita emoção na especial. E foi para lá que nós rumamos.
O trecho que acompanhamos era em um povoado chamado “La Higuera”. Depois de pouco mais de 200 km de estrada, encaramos mais 20km de uma pista de terra (com muita emoção, pois pudemos abusar um pouquinho dos Amaroks e dar umas derrapadinhas _me senti no próprio rali) para chegar em um local, classificado pelo quase brasileiro Tim _que, claro, foi com suas havaianas, ou “flip flops”, como ele diz_ como “um pedacinho do mundo no meio do nada”.
Chegando lá, havia mais de 3 mil pessoas. Muitas acampadas, fazendo churrasco (muito, mas muito churrasco), farofada, ouvindo músicas típicas em alto volume. Cada moto que passava era uma festa. No local, tinha uma construção bem machucada pelo tempo, que foi transformada em lanchonete e tinha a sensação do momento, o choripan.
O choripan nada mais consiste que uma linguiça de chourisco e pão. Claro, Tim e eu fomos encarar. Pedimos dois lanches e duas cervejas. Só não sabíamos que tudo lá era tamanho família: nos deram dois mega sandubas e dois copos de um litro de cerveja, cada. E não é que o negócio era bom? Passamos mal de tanto comer e beber _como só sairia dali muitas horas depois, tomei o copão sem medo de ser feliz.
De lá, partimos para o meio do povão. O céu, fechado, começou a apresentar algumas gotas bem na hora que os carros passaram. E que festa eles fizeram. No meio da multidão, um cara se apresentou, dizendo que trabalhou muitos anos no Brasil. Perguntou: “Já foi em Minas Gerais?”. Disse que sim, claro. “Aqui não parece Minas?”. Concordei só pra não fazer desfeita. Afinal, ali não tinha mineiras, nem pão de queijo. Só choripan.
Os argentinos, aliás, foram muito simpáticos conosco. Ofereceram churrasco, vinho, tudo o que havia ali _até milho. De uma coisa não posso reclamar: a receptividade do povo é coisa de outro mundo. Vi isso na saída de lá _fiz outro buzinaço e fui retribuído com muita festa.
De La Higuera para La Rioja foi chão. 500 km em uma infinita estrada em linha reta e um calor de 38°C. Abri um pouco a janela, coloquei os dedos para fora e tive a impressão de que eles estavam em uma caneca com água morna. Aliás, façam isso daqui a pouco… Vocês terão a mesma impressão que eu tive colocando a mão para fora da janela.
Admito que senti sono, mas me mantive firme, joguei muita água na cara, tirei os óculos escuros, sintonizei o rádio em uma estação local e toquei o pau. Seis horas depois, chegamos. Saí do carro e parecia que tinha entrado em uma sauna. La Rioja, no mapa, é paralela à Porto Alegre, terra que ainda vou morar, mas a semelhança para por aí.
O lugar é lindo, e o sol brilhava forte. O bivouac foi instalado no autódromo de La Rioja, algo semelhante ao de Campo Grande: sem estrutura e no meio do nada. Aliás, estou fazendo desfeita com o Circuito Orlando Moura: lá, pelo menos, existem boxes. Aqui, todo mundo teve de montar tendas.
O sol só partiu depois das 20h, mas o calor permaneceu. E, como saímos com nossos Amoraks, viramos as estrelas locais. O que tirei de foto não é brincadeira. Pediram até autógrafos. Fiz questão de assinar “Michael Schumacher” em dois deles. Tinha um garotinho que coloquei dentro e em cima do carro, e os olhinhos dele brilhavam. Todas as crianças que se aproximaram eu dei um jeitinho de fazer elas felizes. Isso vale muito!
Agora estou em um hotel onde o elevador tem aquelas portas de correr, de metal, os quartos fedem a mofo, a cerâmica do banheiro é rosa e a válvula da descarga é datada do início dos anos 60. Pelo menos a internet funciona! Aleluia! Estou subindo vários filminhos, mas não sei se ficam prontos à tempo de eu sair daqui.
Amanhã a coisa vai pegar. Vamos para Fiambala, a última cidade da primeira perna argentina, onde o deserto já se inicia. Acompanharemos a largada e um estágio nas dunas _tudo filmado e fotografado, como tem de ser. O problema é que a previsão indica um calor de 46°C e teremos de acampar no bivouac, já que não há hotéis. Com isso, não teremos internet, e não haverá coluna amanhã, infelizmente.
Mas na terça-feira retorno com tudo o que aconteceu lá, as histórias de nossa entrada no Chile e algumas novidades que planejei. Espero que lá exista uma conexão boa para isso.

De Carona no Dacar 4 – Nasci de novo

Não sei nem por onde começar. Foram tantas sensações, boas e ruins, durante o dia (que começou às 4 da manhã), que até fui tomar um banho antes de escrever para formular a melhor maneira de contar tudo o que aconteceu neste sábado.

Posso dizer que foi um batismo de fogo meu primeiro dia de Dacar. Ou, falando de forma mais pejorativa, perdi o cabaço com estilo.

Vou contar na ordem cronológica. Depois de um revéillon maluco, a ansiedade bateu na porta pela primeira vez, e mal consegui dormir. Foram apenas três horas de sono, que bastaram diante da vontade de encarar o primeiro dia de competição.

A equipe da Volkswagen marcou o encontro de toda a delegação às 4h40, e de lá partimos rumo a Cordoba, onde a primeira especial seria finalizada. Com o jornalista Carlos Cintra Mauro, o Lua, no volante, ocupei o posto de navegador, enquanto a colega Elaine Freires, da Rádio Eldorado, foi no banco de trás.

O carro, um Amarok, é uma coisa de outro mundo. Ele foi todo preparado para a competição: foi instalada uma gaiola dentro (canos tubulares que fazem o papel do cockpit, comparando com um F-1), GPS, telefone via satélite, celular local, kit de segurança, barracas, água, kit médico e tudo o mais que você possa imaginar.

Para nossa alegria, o carro também continha três pares de Oakley.

Assim como os veículos de competição, nossa viatura tinha número, patrocinadores e nosso nome na lateral. Um luxo.

Bem, partimos. Pegamos a estrada chamada Ruta 9 em direção a Cordoba, com passagem por Rosário. Vimos o sol nascer e uma neblina baixa na estrada, bastante ampla. Ainda bem. Vou contar os motivos.

Cerca de 200 km após partirmos, estava consultando o mapa e, quando vi, não vi mais nada. Ao dar uma olhada no mapa, Lua perdeu a direção do carro e entrou em um matagal do lado direto da pista, em alta velocidade.

O matagal cobriu o carro, e não consegui enxergar nada. Mas vi um poste e uma árvore se aproximando. Nessas horas, muitas pessoas falam que a vida passa por seus olhos. Mentira. Só deu tempo de pensar “caralho”, apertar os cintos e esperar a porrada. Juro, tinha certeza que iríamos parar em um muro, ou em um poste, ou em uma árvore.

Por sorte, mas muita sorte, mesmo, a árvore passou de um lado, e o poste, do outro. Minha quarta vida foi para o saco, restam só três. Quando o carro perdeu velocidade e parou, todos se olharam e, em silêncio, retornamos à estrada. “Vocês tiveram muita sorte”, disse Tim, a figura do grupo _um inglês de cabelos ruivos e uma volumosa barba da mesma cor.

“Vocês passaram muito perto do poste, ‘man’. ‘Holy crap’, como vocês tiveram sorte. Achei que vocês se dariam muito mal”. Os alemães estavam calados, mas desta vez de palidez e susto.

Vou roubar uma frase que ouvi muito no último ano: tenho mais sorte que juízo.

Logo em seguida, paramos para tomar café com toda a equipe, e paramos para olhar o carro. Intacto. Só estava tomado de grama em todos os locais possíveis. “Foi tudo culpa minha, me distraí”, disse Lua, que me passou o volante do carro. Daí, seguimos viagem.

No primeiro contato com o carro, entendi o que aconteceu. O volante deste Amarok é o mais sensível que já vi. Se você encosta com a ponta dos dedos, ele já vira. Aos poucos, fui me acostumando com aquele trambolhão e o susto foi momentaneamente esquecido.

Dali em diante, guiei cerca de 500 km até a chegada da primeira especial. Até então, ninguém sabia do acidente fatal _só soubemos no bivouac, o acampamento do Dacar, e por meio de colegas via Twitter. Os organizadores insistiam em negar o óbito, mas isso é história para mais tarde.

Quando paramos na chegada da especial, o local estava tomado. Cerca de cinco mil pessoas foram para o fim do mundo que era aquele lugar e estavam em polvorosa. Cada carro era uma festa. Quando paramos na beira da estrada para assistir um pouco, fomos cercados por centenas de fãs.

Passado um tempo, colocamos o pé na estrada novamente rumo ao bivouac, que estava a uns 100 km dali. Todo o caminho estava tomado de pessoas. Cada carro que passava era uma festa. E não perdi a oportunidade: saí buzinando para cada tchauzinho que vi. Me senti o próprio Sainz.

Para o público, éramos competidores. E cada criança que via seu aceno correspondido abria um sorriso de orelha a orelha. Foi aí que senti uma satisfação enorme. Ver uma criança pulando e falando: “Pai, pai, ele acenou para mim” é fantástico. Duvido que todas aqueles pequenos fãs que estavam ali esquecerão disso.

E não eram só crianças, mas pessoas de todas as idades que faziam uma festa enorme quando eram correspondidas. De lá para o hotel fiz um buzinaço sem tamanho. Só não fazia quando a polícia estava por perto. Vai que tomamos um enquadro…

Depois de muito tempo, chegamos ao bivouac. Cara, que zona. Foi aí que surgiu a terceira sensação do dia: a raiva. Não havia um ponto sequer de internet para ser usado! Quando solicitávamos aos organizadores, eles diziam: “20 minutos, dez euros; uma hora, 30 euros”. Ou seja, se você não pagar, se ferra. Me restou a segunda opção.

A Volkswagen oferecia uma internet, mas à manivela. Via satélite, cada megabyte custava para eles cinco euros. Eles pagaram dez mil euros por um pacote de 400 Mb. Agora, me façam uma pergunta: aquilo funciona? Merda nenhuma.

Me restou fazer os textos, salvar em um pendrive e usar o computador da VW, um Apple. Quando abri os arquivos, todas as sílabas acentuadas das palavras viraram símbolos incompreensíveis. Fiquei mais puto. Tracei a seguinte tática: enviar os textos no corpo do e-mail para um de meus companheiros de site subirem.

Só que, quando estava tudo pronto, caiu a energia do caminhão. Não preciso dizer que o meu nível de insanidade foi pra estratosfera. Até o iPhone parou de funcionar, e foi aí que desisti. Peço até desculpas aos leitores do Tazio. Odeio trabalho incompleto, mas acho que gastei toda minha sorte de manhã. Ah, vá… Por tudo o que aconteceu, acredito que mereço um crédito.

Agora estou no hotel, recuperando o trabalho atrasado e me recompondo para amanhã, quando rumaremos para La Rioja. Espero que amanhã nenhum drama aconteça, e que tudo corra bem, para que possamos ter um bom rali, seja nos trechos cronometrados quanto nos deslocamentos dos carros de serviço.

Espero estar inteiro amanhã para contar mais detalhes!

De Carona no Dacar 3 – ¡Feliz Año Nuevo!

¿Hola, que tal? ¡Feliz Año Nuevo! Não sei como foi para vocês, mas, definitivamente, o revéillon 2010 será uma coisa que não vou esquecer tão cedo. Provavelmente nunca.

A Volkswagen, que me convidou para acompanhar a primeira parte do Rali, organizou um jantar de fim de ano no Restaurante Godoy, em Palermo. “Jantar?”, pensei. “Acho que os alemães não devem fazer muita festa”.

Chegando no local, minhas previsões estavam certas. Todos os alemães estavam sérios, conversando, com poucas risadas (quase nenhuma) e brincadeiras. “Acho que eles estão assim porque na Alemanha 2010 começou faz tempo”.

Quando foi dado o aviso, todos sentaram nas mesas e permaneceram sérios, coisa que me incomodou bastante. Brett, amigo norte-americano que fará o rali conosco, estava inconformado: “Estou na América do Sul, quero festa. Desse jeito vou dormir”. Concordei.

A chatice estava tamanha que me bateu uma tristeza. Queria estar com todos os meus amigos celebrando, bebendo, rindo, etc. À francesa, saí da mesa e fui para o lado de fora. De lá, comecei a telefonar para todos, desejando boas festas e matando parte da saudade.

Neste período, Carlos Sainz passou por mim, desejou feliz ano novo e se retirou, na mesma seriedade dos alemães. Tá, ele eu compreendo: é uma das estrelas da competição e precisava descansar para encarar 310 km de estrada para Cólon, além da largada promocional.

Não sei quanto tempo fiquei falando com meus amigos, mas, quando voltei à mesa, o jantar já havia terminado. Quando o relógio indicou 23 horas locais (meia noite no Brasil), a delegação tupiniquim fez uma comemoração comedida _os alemães permaneceram calados.

Sem saco para aguentar tanta falta de alegria, saí novamente, desta vez acompanhado por Brett, esperando que algo acontecesse. Tempo vai, tempo vem, e nada. Até que, quando restavam 20 minutos, as crianças argentinas, filhas dos funcionários do restaurante, saíram correndo com buzinas e serpentinas, comemorando o “año nuevo”, com os pais dizendo: “Ainda não é a hora, calma!”. Os alemães permaneceram calados.

Quando faltavam dez minutos, tudo começou a mudar. As pessoas passaram a distribuir narizes de palhaço luminosos, uns trecos que soltavam papéis picados, chapéus engraçados, e o ambiente passou a ficar um pouco mais animado.

À meia noite, o cenário virou de ponta-cabeça: virou festa. Fogos de artifício explodiram no céu e todos os alemães surgiram com sorrisos no rosto, dizendo “Feliz año nuevo” em um espanhol muito arrastado, distribuindo abraços e beijos para todo mundo.

Com isso, os brasileiros, argentinos, paraguaios, peruanos, italianos, portugueses, espanhóis e os outros integrantes das mais diversas nacionalidades iniciaram a confraternização, fazendo com que minha tristeza se transformasse em uma grande alegria.

Que bom. Isso era tudo o que queria. Depois, fui para a festa da Red Bull com amigos brasileiros e a festa foi até o sol raiar. Aliás, que coisa linda é o nascer do sol em Buenos Aires. 2010 começou de maneira maravilhosa.

Hoje foi o dia da checagem final da viatura. Meus companheiros me deram uma “folga” e fizeram todos os procedimentos, já que não era obrigatória a presença de todos. De lá, eles passaram no hotel e me encontraram para a largada promocional. Seguimos a pé e sofremos com a quantidade de mosquitos, que resolveram nos seguir.

As pessoas na rua olhavam e riam: um inglês e dois brasileiros se estapeando para espantar os mosquitos uns dos outros. Saímos vivos, mas ganhei uma picada que gerou uma belo inchaço no antebraço direito.

Chegando na Avenida Nove de Julho, um cenário impressionante. Tudo estava tomado. Estimaram cerca de 600 mil pessoas no trajeto todo. “Se fizessem a mesma coisa na largada dos Sertões em Brasília, por exemplo, não teriam seis gatos pingados e todos estariam reclamando de algo”, disse um colega. Não duvido muito.

É fantástica a paixão dos argentinos por competição _especialmente ralis. As televisões locais estão transmitindo tudo ao vivo. Aliás, eles estão dizendo que 800 mil pessoas estavam na largada. Que número, hein? Era perceptível que pessoas de todas as classes sociais estavam na rua: de ricos a pobres, passando pela classe média, misturados com gente de diversos países. Todos, um do lado do outro, aplaudindo e celebrando a passagem dos carros.

É… O Dacar escolheu o lugar perfeito para competir.

Bem, agora vou descansar. Daqui à pouco, às 4h locais, colocamos o pé na estrada rumo à Córdoba, distante 800 km daqui. Segundo nossas estimativas, o percurso deve durar oito horas. Seguiremos em comboio com toda a comitiva da Volkswagen, obedecendo uma velocidade limitada.

Vejo vocês em Córdoba!